Por que procrastinamos?
Fonte IBE- Érica Gomes
Definições à parte, se sabemos que temos responsabilidades, por que procrastinamos? O que está acontecendo no cérebro que impede de seguir o fluxo de atividades?
Nesse momento é uma boa hora para nos aliarmos à ciência e entendermos melhor o funcionamento do nosso cérebro. Algumas pesquisas em psicologia comportamental revelaram a existência de um fenômeno chamado “inconsistência temporal”, fenômeno ligado à nossa incapacidade de fazer tudo que precisamos no tempo correto.
A Inconsistência Temporal refere-se à tendência do cérebro humano de valorizar recompensas imediatas mais do que recompensas futuras.
A melhor maneira de entender isso é imaginando que você tem dois “Eus”: seu Eu Presente e seu Eu Futuro. E quando você estabelece metas para si – como perder peso, escrever um livro ou aprender um idioma – você está na verdade fazendo planos para o seu Eu Futuro. Está, portanto, imaginando sua vida no futuro.
Os pesquisadores descobriram que, quando você pensa sobre o seu Eu Futuro, é muito fácil para o seu cérebro ver o valor de realizar ações com benefícios de longo prazo. O Eu Futuro valoriza recompensas de longo prazo.
No entanto, embora o Eu Futuro possa definir metas, apenas o Eu Presente pode agir. Quando chega a hora de tomar uma decisão, você não está mais fazendo uma escolha para o seu Eu Futuro. Agora você está no momento presente e seu cérebro está pensando sobre o Eu Presente. Os pesquisadores descobriram que o Eu Presente realmente gosta da gratificação instantânea, ou seja, prazeres imediatos.
Essa busca por prazeres imediatos também está ligada com a pandemia. Afinal, após quase dois anos de isolamento social, máscaras, home office e sem ver amigos: estamos todos entediados. Uma pesquisa com 3,5 mil pessoas em lockdown na Itália mostrou que o tédio era um dos efeitos psicológicos negativos mais comumente reportados na quarentena.
O tédio também é um dos fatores que leva nosso Eu Presente a buscar recompensas e prazer imediatos ao invés de cumprir as metas do Eu Futuro.
Portanto, esses dois “eus” estão frequentemente em conflito. O Eu Futuro quer estar em forma, mas o Eu Presente quer um bolo de chocolate, para uma rápida dose de serotonina e açúcar. Mesmo sabendo da sua vontade de estar em forma, e que comer saudável é necessário para evitar problemas de saúde daqui 10/15 anos.
Da mesma forma, muitos jovens sabem que economizar para a aposentadoria na casa dos 20 ou 30 anos é crucial, mas o benefício de fazer isso ainda está a uma longa distância no futuro. É muito mais fácil para o Eu Presente ver o valor em comprar um novo par de sapatos do que em guardar R$100 para usar daqui 50 anos.
Essa é uma das razões pelas quais você pode ir para a cama sentindo-se motivado a fazer uma mudança em sua vida, mas, quando acorda, volta aos velhos padrões. Seu cérebro pode valorizar as metas futuras (amanhã), mas quando se torna o presente (hoje), pode ser que busque a gratificação rápida.
A Linha Procrastinação-AçãoVocê não pode contar com consequências e recompensas de longo prazo para motivar o Eu Presente. Em vez disso, você deve encontrar uma maneira de mover recompensas e punições futuras para o momento presente. Você tem que fazer com que as consequências futuras se tornem também consequências presentes.
Isso é exatamente o que acontece naquele momento em que finalmente vencemos a procrastinação e entramos em ação. Por exemplo, digamos que você tenha um relatório para escrever. Você sabe disso há semanas e continuou a adiar dia após dia. Você sente um pouco de dor e ansiedade incômodas ao pensar neste artigo que precisa escrever, mas não o suficiente para fazer algo a respeito.
Então, de repente, um dia antes do prazo, as consequências futuras se transformam em consequências presentes, e você escreve esse relatório horas antes do prazo. A dor de procrastinar finalmente aumentou e você cruzou a “Linha de Ação”.
Assim que você cruza a Linha de Ação, a dor começa a diminuir. Porque na maioria das vezes, a “dor” costuma ser maior no momento de procrastinação do que no momento de ação.
Você já deve ter pensado mais de uma vez após concluir uma tarefa, como o mencionado relatório, que poderia ter feito aquilo bem rápido e sofrido menos ao longo do tempo.
A culpa, a vergonha e a ansiedade que você sente enquanto procrastina são geralmente piores do que o esforço e a energia que você precisa colocar enquanto está trabalhando. O problema não é fazer o trabalho, é começar o trabalho.
Nesse momento de isolamento social, quando nossas emoções estão confusas e geralmente estamos mais ansiosos e estressados, de acordo com uma pesquisa, realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mostrou que 47,9% dos psiquiatras entrevistados perceberam uma alta nos atendimentos realizados após o início da crise pandêmica e 89,2% dos médicos relataram agravamento do quadro psiquiátrico nos pacientes.
Portanto, se quisermos parar de procrastinar, precisamos tornar o mais possível para o Eu Presente começar e confiar que a motivação e o impulso virão depois do start.
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